Entre cidades
Mudar de cidade não acontece de uma vez. Acontece aos poucos, lentamente, durante os silêncios. Acontece nas comparações que fazemos sem querer, em caminhos que o corpo ainda tenta seguir por hábito, acontece no banco de trás do carro a olhar pela janela e nas caras novas de todos os dias. Há dias em que acordo sem saber muito bem onde pertenço e onde estou, como se uma parte de mim tivesse ficado para trás e outra ainda não tivesse a prendido a ficar. É estranho viver assim, com o coração num lugar a alma noutro. Numa cidade, tudo me conhece. As ruas, os horários, as memórias. Sei exatamente onde olhar, o que evitar, para onde ir e quem fui ali. Numa outra, estou sempre num começo novo, com um novo olhar, a aprender a adaptar-me, a tentar sentir- me em casa, sem saber bem como o fazer, e sem o querer fazer. E é lá no meio que me encontram, a aprender a viver entre versões de mim que não se relacionam. Quando volto, sinto que já não en...